sábado, 24 de maio de 2008

A Despedida.


Será que você poderia, por favor, tirar toda essa tralha que você deixou aqui dentro do meu coração?
São suas coisas, você precisa delas e eu ando precisando dar uma faxina aqui dentro...
Você poderia partir meu colchão ao meio? Depois que você se foi eu tenho achado essa cama grande demais pra mim. Sem você eu fiquei pequena, eu não caibo mais ali. E você trocaria os lençóis também? O seu cheiro ainda está muito forte, anda me dando náuseas.
Você poderia também trocar o meu xampu, perfume e desodorante? Trocar meu creme dental, o meu sabonete, meu cabelo, meu rosto? Eu me olho no espelho e ainda te vejo chegando por trás de mim com a câmera fotográfica dizendo que eu fico linda até mesmo escovando os dentes.
Você sabe como se faz pra trocar de nome? Toda vez que eu escuto meu nome me vem na cabeça todos aqueles apelidinhos que a gente tinha, o nome dos nossos futuros filhos.
Tem algum remédio pra dor? Não, não é pra dor de cabeça, é uma dor estranha, bem aqui no peito... Não sei explicar bem o que é, mas eu acho que já senti isso antes, você se lembra? Será que existe alguma comida nova no supermercado? Alguma que a gente nunca tenha se divertido preparando, que você não tenha feito algum comentário sobre como você gosta de me ver cozinhar?
Eu posso ir viver a minha vida agora? Sozinha? Você sempre fez tudo por mim, eu mal me lembro como é que se faz as coisas mais, não sei nem como vou me levantar da cama sem ouvir o seu 'bom dia' rouco amanhã pela manhã.
Você viu a previsão do tempo? Nos próximos dias deu que vai cair uma tempestade em meus olhos, tudo vai transbordar, um desastre. Não, não estou preocupada. Nem preparada. Mas sempre tem aliados que ajudam muito nessas catástrofes. Por falar em aliados, não sobrou nenhuma daquelas cervejas que a gente adorava tomar no fim de semana? Nossa, isso cairia muito bem agora.
E nem carne eu quero ver mais, acho que vou virar vegetariana. Vou mudar o cabelo, vou comprar roupas novas, vou renovar todo o estoque de amor que eu tinha guardado na geladeira e que venceu o prazo de validade. Eu falei pra você aproveitar aquilo lá, e olhe só... Vou ter que jogar tudo fora agora.
Você não teria nenhuma borracha por aí, teria? Queria apagar seu rosto tão vivo na minha cabeça, pra eu não me pegar mais uma vez dando uma olhadinha escondida pra ele. Eu sou teimosa, você me conhece: não escuto nem a mim mesma.
Sabe de uma coisa? Acho que vou deletar todas aquelas músicas do meu computador. Pra quê deixar elas ali se elas são piores que espinhos cravando no meu peito refrescando a vívida memória daquele momento, daquele segundo, da gente sacudindo dentro do ônibus. A gente andava muito de ônibus, né? Ainda bem que eu posso ir caminhando até o trabalho, já pensou?!
E me arrume uma daquelas caixinhas que você adora, um potinho, um frasquinho, que é pra eu te colocar ali dentro e esconder bem escondido. Pra eu me esquecer onde foi que eu guardei, assim como você fazia quando a gente ia sair de casa e você não sabia onde tinha deixado o meu maço de cigarros...

Nenhum comentário: