É a distância entre o quase parecido e o muito igual.
Enquanto eu vou deixando de gostar de você
Os dias vão passando
As unhas vão crescendo
Os cachorros vão latindo e correndo atrás dos dias,
Das ruas,
Das cores que não tem mais.
Enquanto eu vou gostando cada vez menos de você
Os dias vão ficando cada vez mais iguais,
A comida com o mesmo gosto,
E eu com o mesmo rosto.
Enquanto o tempo vai passando,
Eu mais perto dos vinte vou ficando,
Atropelando,
Tropeçando,
Errando.
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Eu me lembro de quando nós planejávamos as coisas juntas. De quando decidíamos tudo juntas. Nós íamos estudar juntas, ouvíamos música juntas.
Existem coisas que acontecem por acaso, existem outras que o destino faz por querer.
Todos nós somos como diamantes.
Nascemos pedra bruta para sermos lapidados ao longo dos acontecimentos.
O que dizer quando o oxigênio está acabando?
O que mais se pode fazer?
Agora que está aqui do meu lado de novo, não vou mais deixar você se afastar de mim.
O que dizer quando o oxigênio está acabando?
O que mais se pode fazer?
Agora que está aqui do meu lado de novo, não vou mais deixar você se afastar de mim.
Lá Dentro
"Prefiro as crianças. Pelo menos elas olham diretamente pra mim, perguntam o que é isso na minha boca, se dói, como coloca. Os mais velhos também, com um comentário de que na época deles nem brinco tinha. Os adultos olham de lado, viram o rosto quando eu passo. Sempre mentem, sempre escondem. Um veneno aquilo." (Ônibus, a caminho do trabalho, 6h47m)
Ah, se eu te contasse metade das coisas que passam na minha cabeça, menina, você enlouqueceria cem vezes mais que eu.
De tudo um pouco acontece. Do que já passou, de momentos inteiros ou apenas fragmentos, de lembrancinhas soltas flutuando sem nome. Do que pode acontecer, situações que crio, dos carros que eu compro todo dia, das pessoas que eu conheço na minha imaginação, dos filmes que faço. Do que está acontecendo, milhares de contas e números, da cerveja que me espera no bar, do que vou fazer para jantar, uma nova música...
Tudo se passa tão rápido ali, que nem o mais grosso dos cadernos conseguiria anotar. Nem a mais longa das músicas cantaria uma fração de segundo de um dos meus pensamentos.
Nos personagens dos livros eu coloco rostos, e uma voz para narrar a história.
Para as pessoas eu construo castelos, de acordo com o que cada uma é para mim.
Dou nomes para as pessoas na rua. Dou bom dia ao Sol e boa noite ao apresentador do telejornal. Digo
para minhas mãos que elas precisam de hidratante e para minhas roupas que elas estão velhas.
Pros filmes eu dou seqüência, carrego comigo até os personagens envelhecerem.
No meu mundo cada um é como quero, como faço.
A Fã.
Ela não queria ser só mais um isqueiro na multidão. Ela queria ser percebida ali, queria que a vissem. Tanto esforço, tanta loucura, tanto choro! Ela não podia morrer sem que eles sequer soubessem da sua existência. Mas naquele exato segundo ela era apenas mais uma voz no coro do refrão. As lágrimas escorregavam por suas bochechas enquanto os minutos iam passando. "Por que as músicas são tão curtas? Assim não dá tempo de fazer nada!"
Ela nunca obteve resposta alguma pelas milhares e quilométricas cartas, nem um e-mail. Nem um postal fajuto escrito em computador com a capa do CD da banda, que todo mundo tinha menos ela. "Injustiça", pensava, "elas não sentem nem um quarto do que eu sinto...".
Ela não desistiria. Da última vez não obteve progresso algum: aqueles seguranças enormes e musculosos pareceram nem notar sua existência trêmula e desesperada na porta do camarim. Virar membro do fã-clube também não adiantou. "Mentirosos. Tenho que me lembrar de sair daquilo, estive gastando dinheiro à toa..."
Enquanto ela pensava em alguma coisa, metade do show já tinha corrido e ela ainda era apenas uma molécula no meio da massa de pessoas espremidas, forçando um passo a mais na direção do palco. Ela tinha viajado por horas em uma excursão para um estado vizinho, e era a pura esperança que havia em seu coração que a mantinha em pé ainda.
Tinha uma pasta preta gorda, dessas de plasticozinhos, que já não cabia mais nada. Muitas fotografias tremidas, tiradas de longe, de quatro pessoas quase indistinguíveis a não ser a dedução pelo enorme telão que passava escrito o nome da banda, quase que por acaso, uma confirmação. Muitos tickets e ingressos de shows que ela já tinha ido. Guardanapos, canetas, e folhetos daquela tarde de autógrafos que ela não conseguiu nem chegar perto deles, e o máximo que conseguiu foram essas relíquias, que eram mais psicológicas do que reais, uma vez que ela não tinha certeza se foram usados ou tocados por eles realmente. Um autógrafo que ela comprou pela internet, dedicado à uma tal de Fernanda, mas o nome não importava. Aquele era legítimo, ela sabia, a letra era dele mesmo. Um pedaço rasgado de uma toalhinha de rosto que ela teve de lutar barbaramente com outras mulheres para conseguir. Tinha caído do palco quase na mão dela, mas quando as outras viram avançaram ferozmente em cima dela, loucas pelo objeto precioso. Com alguns arranhões, um pouco de sangue e muito suor, ela ainda conseguiu ficar com boa parte da toalha. Muitos recortes de revistas e pôsteres que são vendidos em bancas de jornal, baratos, mas também faziam parte da coleção. Dos CD's nem é preciso falar, ela tinha todos, claro.
Num impulso e com uma força descomunal que nem ela mesma sabia de onde vinha, ela avançou firmemente rumo ao palco. Nem sabia o que estava fazendo mas deixou suas pernas seguirem sozinhas para ver até onde iriam.
Não demorou até chegar nas grades que separam o público do palco e ela subiu como se fosse uma ginasta. No topo da grade e com os seguranças já começando a se agrupar abaixo dela, pulou. Nem pensou: achou que poderia voar até o palco ou qualquer outra idéia absurda. Até mesmo com o barulho alto do som pôde-se ouvir ela caindo de cara no chão num baque surdo. A distância era muito grande para ela conseguir chegar no palco, pelo menos. O som parou e os seguranças vieram correndo. Para ela era tudo muito confuso, as imagens misturando, o gosto de sangue na boca. Ela abriu os olhos e viu ele, o rosto aflito, com sua voz musical perguntando "você está bem?". E ela, com um sorriso avermelhado, fechou os olhos, tudo escureceu.
Ela se queria ser perfeita.
Ela sempre quis ser diferente.
Ela tinha o nome diferente, o cabelo diferente, se esforçava para aparecer, para se destacar.
Também, com as duas irmãs lindas e cobiçadas... Isso ofusca qualquer pessoa. Não que fosse feia, isso nunca achou. Mas desejava ser anormal.
Ser lembrada por algum motivo, um bom motivo.
Ela tinha muitas manias engraçadas. Ela gostava de fumar no banheiro. Gostava de sentir o cheiro das pessoas, e diferenciá-las por isso. Ela gostava de escrever ao contrário, gostava de contar piadas, de fazer as pessoas rirem dela. Ela gostava muito de conversar com os bichos e, sobretudo, de conversar com ela mesma. Tinha horas e horas de enérgicas conversas sobre tudo que é assunto consigo mesma, e nunca faltava sobre o que dialogar. Ela tinha muitos amigos imaginários com nomes americanos e sempre cultivou um certo interesse por línguas estrangeiras. Ela sempre gostou de tecnologia, e tudo começou com uma calculadora que seu pai tinha. Ela gostava de consertar e limpar as coisas, e achava também que podia consertar as pessoas. Ela achava que era um cupido e que poderia juntar casais que julgava parecidos. Ela queria saber o que tinha além do limite de onde os olhos podiam ver em cima da mais alta árvore do quintal. Ela queria ser alta, médica, dentista, esportista, cantora, desenhista, e professora.
Tinha uma memória enorme e um catálogo gigantesco de tudo que já tinha visto ou ouvido, de tudo que julgava importante. Ela nunca soube falar direito, nunca conseguiu ensinar nada direito. Se ela aprendia com tanta facilidade, por que era tão difícil para as outras pessoas?
Ela queria ser ouvida, e como não lhe foi dado o dom das palavras, ela desenhava para ser ouvida. Cantava para ser ouvida , escrevia para ser ouvida. Não adiantou. Então passou a pensar que se fosse outra pessoa as pessoas parariam para escutá-la. E ela se tornou outra pessoa.
Ela se escondeu muito bem escondido em algum dos quartos que existem dentro dela. E saiu, confiante, de cara nova para o mundo.
Ela nunca mentia, sempre foi sincera.
Ela sempre tentou agradar as pessoas, ela sempre semeou o bem. E ela sonhava, ah!, como ela sonhava. Sempre sonhou, desde que se lembra.
Ela sempre foi muito curiosa. Ela gosta de aprender.
Ela está sempre apaixonada, seja pela mesma pessoa, seja por várias pessoas.
Ela gosta de fazer amigos, ela gosta de ser amiga.
Ela vive num mundo que ela criou. Um mundo só dela, e só entra quem ela permitir. Quem conseguir.
Ela não esquece.
De nada, jamais.
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