quinta-feira, 1 de maio de 2008

A Fã.


Ela não queria ser só mais um isqueiro na multidão. Ela queria ser percebida ali, queria que a vissem. Tanto esforço, tanta loucura, tanto choro! Ela não podia morrer sem que eles sequer soubessem da sua existência. Mas naquele exato segundo ela era apenas mais uma voz no coro do refrão. As lágrimas escorregavam por suas bochechas enquanto os minutos iam passando. "Por que as músicas são tão curtas? Assim não dá tempo de fazer nada!"
Ela nunca obteve resposta alguma pelas milhares e quilométricas cartas, nem um e-mail. Nem um postal fajuto escrito em computador com a capa do CD da banda, que todo mundo tinha menos ela. "Injustiça", pensava, "elas não sentem nem um quarto do que eu sinto...".
Ela não desistiria. Da última vez não obteve progresso algum: aqueles seguranças enormes e musculosos pareceram nem notar sua existência trêmula e desesperada na porta do camarim. Virar membro do fã-clube também não adiantou. "Mentirosos. Tenho que me lembrar de sair daquilo, estive gastando dinheiro à toa..."
Enquanto ela pensava em alguma coisa, metade do show já tinha corrido e ela ainda era apenas uma molécula no meio da massa de pessoas espremidas, forçando um passo a mais na direção do palco. Ela tinha viajado por horas em uma excursão para um estado vizinho, e era a pura esperança que havia em seu coração que a mantinha em pé ainda.
Tinha uma pasta preta gorda, dessas de plasticozinhos, que já não cabia mais nada. Muitas fotografias tremidas, tiradas de longe, de quatro pessoas quase indistinguíveis a não ser a dedução pelo enorme telão que passava escrito o nome da banda, quase que por acaso, uma confirmação. Muitos tickets e ingressos de shows que ela já tinha ido. Guardanapos, canetas, e folhetos daquela tarde de autógrafos que ela não conseguiu nem chegar perto deles, e o máximo que conseguiu foram essas relíquias, que eram mais psicológicas do que reais, uma vez que ela não tinha certeza se foram usados ou tocados por eles realmente. Um autógrafo que ela comprou pela internet, dedicado à uma tal de Fernanda, mas o nome não importava. Aquele era legítimo, ela sabia, a letra era dele mesmo. Um pedaço rasgado de uma toalhinha de rosto que ela teve de lutar barbaramente com outras mulheres para conseguir. Tinha caído do palco quase na mão dela, mas quando as outras viram avançaram ferozmente em cima dela, loucas pelo objeto precioso. Com alguns arranhões, um pouco de sangue e muito suor, ela ainda conseguiu ficar com boa parte da toalha. Muitos recortes de revistas e pôsteres que são vendidos em bancas de jornal, baratos, mas também faziam parte da coleção. Dos CD's nem é preciso falar, ela tinha todos, claro.
Num impulso e com uma força descomunal que nem ela mesma sabia de onde vinha, ela avançou firmemente rumo ao palco. Nem sabia o que estava fazendo mas deixou suas pernas seguirem sozinhas para ver até onde iriam.
Não demorou até chegar nas grades que separam o público do palco e ela subiu como se fosse uma ginasta. No topo da grade e com os seguranças já começando a se agrupar abaixo dela, pulou. Nem pensou: achou que poderia voar até o palco ou qualquer outra idéia absurda. Até mesmo com o barulho alto do som pôde-se ouvir ela caindo de cara no chão num baque surdo. A distância era muito grande para ela conseguir chegar no palco, pelo menos. O som parou e os seguranças vieram correndo. Para ela era tudo muito confuso, as imagens misturando, o gosto de sangue na boca. Ela abriu os olhos e viu ele, o rosto aflito, com sua voz musical perguntando "você está bem?". E ela, com um sorriso avermelhado, fechou os olhos, tudo escureceu.

Nenhum comentário: