quinta-feira, 1 de maio de 2008


Ela se queria ser perfeita.
Ela sempre quis ser diferente.
Ela tinha o nome diferente, o cabelo diferente, se esforçava para aparecer, para se destacar.
Também, com as duas irmãs lindas e cobiçadas... Isso ofusca qualquer pessoa. Não que fosse feia, isso nunca achou. Mas desejava ser anormal.
Ser lembrada por algum motivo, um bom motivo.
Ela tinha muitas manias engraçadas. Ela gostava de fumar no banheiro. Gostava de sentir o cheiro das pessoas, e diferenciá-las por isso. Ela gostava de escrever ao contrário, gostava de contar piadas, de fazer as pessoas rirem dela. Ela gostava muito de conversar com os bichos e, sobretudo, de conversar com ela mesma. Tinha horas e horas de enérgicas conversas sobre tudo que é assunto consigo mesma, e nunca faltava sobre o que dialogar. Ela tinha muitos amigos imaginários com nomes americanos e sempre cultivou um certo interesse por línguas estrangeiras. Ela sempre gostou de tecnologia, e tudo começou com uma calculadora que seu pai tinha. Ela gostava de consertar e limpar as coisas, e achava também que podia consertar as pessoas. Ela achava que era um cupido e que poderia juntar casais que julgava parecidos. Ela queria saber o que tinha além do limite de onde os olhos podiam ver em cima da mais alta árvore do quintal. Ela queria ser alta, médica, dentista, esportista, cantora, desenhista, e professora.
Tinha uma memória enorme e um catálogo gigantesco de tudo que já tinha visto ou ouvido, de tudo que julgava importante. Ela nunca soube falar direito, nunca conseguiu ensinar nada direito. Se ela aprendia com tanta facilidade, por que era tão difícil para as outras pessoas?
Ela queria ser ouvida, e como não lhe foi dado o dom das palavras, ela desenhava para ser ouvida. Cantava para ser ouvida , escrevia para ser ouvida. Não adiantou. Então passou a pensar que se fosse outra pessoa as pessoas parariam para escutá-la. E ela se tornou outra pessoa.
Ela se escondeu muito bem escondido em algum dos quartos que existem dentro dela. E saiu, confiante, de cara nova para o mundo.
Ela nunca mentia, sempre foi sincera.
Ela sempre tentou agradar as pessoas, ela sempre semeou o bem. E ela sonhava, ah!, como ela sonhava. Sempre sonhou, desde que se lembra.
Ela sempre foi muito curiosa. Ela gosta de aprender.
Ela está sempre apaixonada, seja pela mesma pessoa, seja por várias pessoas.
Ela gosta de fazer amigos, ela gosta de ser amiga.
Ela vive num mundo que ela criou. Um mundo só dela, e só entra quem ela permitir. Quem conseguir.
Ela não esquece.
De nada, jamais.

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