sábado, 24 de maio de 2008

Tempos e Tempos.


Mas é verdade. Agora a gente só sabe beber e fumar. Do resto, que se foda. Pode passar a semana inteira dentro de uma lata de lixo, mas se tiver dinheiro pra sair no fim de semana "eu sou a pessoa mais feliz do mundo". Todos escravos do dinheiro e da vaidade. Saindo armados, pra caçar. Inventam modas, se acham os mais cool e diferentes de todo mundo. E eu sou assim também.
Até os mais novos andam seguindo essas coisas estúpidas. Eu juro que eu sinto saudade do meu primeiro namorado e daquela época. Nossa, eu era tão inocente: achava que ia me casar com ele e que ele era o homem da minha vida. Ok, decepções todo mundo tem e isso nunca foi desculpa pra ninguém sair dando tiros no céu da boca, mas será que é só eu que tenho essa impressão de que me tornei quase tudo aquilo que eu tanto odiava? Vou te contar... Eu passava a semana inteira estudando (sério!) e esperando chegar sexta-feira. Ele me ligava algumas vezes por semana, pra falar do emprego (5 anos mais velho) e eu resmungava algumas coisas da escola. Sexta - feira, 6 horas, tava lá com mala e cuia esperando já dentro do carro, aquela hora interminável de faróis e carros e meu pai escutando 'A Voz do Brasil' na rádio. Chegou, corre, tomar banho, perfume, ai, não tenho blusa! Ia descendo a rua toda feliz, passava na padaria pra comprar bala (sempre Frutella de morango e creme de leite). Chegava na pracinha e ele já estava lá. Sempre estava lá. Entre nós dois não havia muita conversa, então eu o ouvia conversar com os amigos dele... Só. Sem sexo, sem maldade, sem nada. Domingo ia embora, começava tudo de novo. Ficou assim por onze meses, até que... Bom, quem sabe, sabe.
Fico vendo esses meninos (as) de quinze anos na maior perversão despirocados bebendo, fumando, cheios de piercings e tatuagens, se drogando, se prostituindo (ok, exagero), mas... Ai, chega a dar agonia! Esses meninos com poucos anos que já fizeram de tudo, de quatro, de lado, de frente, de costas, e eu que nunca tinha bebido Mojito.

Estamos chegando na parte de realização de sonhos. Tem dias que eu penso sobre como a maioria das coisas com as quais eu tanto sonhei quando criança eu já tenho... Coisas bobas, desde pintar o cabelo, ter um bermudão, ir pra São Paulo a comprar um laptop, morar sozinha, fazer compras. Legal, né?
É, minha amiga, corra atrás dos seus sonhos. Antes que o tempo seja mais rápido do que você.

A Despedida.


Será que você poderia, por favor, tirar toda essa tralha que você deixou aqui dentro do meu coração?
São suas coisas, você precisa delas e eu ando precisando dar uma faxina aqui dentro...
Você poderia partir meu colchão ao meio? Depois que você se foi eu tenho achado essa cama grande demais pra mim. Sem você eu fiquei pequena, eu não caibo mais ali. E você trocaria os lençóis também? O seu cheiro ainda está muito forte, anda me dando náuseas.
Você poderia também trocar o meu xampu, perfume e desodorante? Trocar meu creme dental, o meu sabonete, meu cabelo, meu rosto? Eu me olho no espelho e ainda te vejo chegando por trás de mim com a câmera fotográfica dizendo que eu fico linda até mesmo escovando os dentes.
Você sabe como se faz pra trocar de nome? Toda vez que eu escuto meu nome me vem na cabeça todos aqueles apelidinhos que a gente tinha, o nome dos nossos futuros filhos.
Tem algum remédio pra dor? Não, não é pra dor de cabeça, é uma dor estranha, bem aqui no peito... Não sei explicar bem o que é, mas eu acho que já senti isso antes, você se lembra? Será que existe alguma comida nova no supermercado? Alguma que a gente nunca tenha se divertido preparando, que você não tenha feito algum comentário sobre como você gosta de me ver cozinhar?
Eu posso ir viver a minha vida agora? Sozinha? Você sempre fez tudo por mim, eu mal me lembro como é que se faz as coisas mais, não sei nem como vou me levantar da cama sem ouvir o seu 'bom dia' rouco amanhã pela manhã.
Você viu a previsão do tempo? Nos próximos dias deu que vai cair uma tempestade em meus olhos, tudo vai transbordar, um desastre. Não, não estou preocupada. Nem preparada. Mas sempre tem aliados que ajudam muito nessas catástrofes. Por falar em aliados, não sobrou nenhuma daquelas cervejas que a gente adorava tomar no fim de semana? Nossa, isso cairia muito bem agora.
E nem carne eu quero ver mais, acho que vou virar vegetariana. Vou mudar o cabelo, vou comprar roupas novas, vou renovar todo o estoque de amor que eu tinha guardado na geladeira e que venceu o prazo de validade. Eu falei pra você aproveitar aquilo lá, e olhe só... Vou ter que jogar tudo fora agora.
Você não teria nenhuma borracha por aí, teria? Queria apagar seu rosto tão vivo na minha cabeça, pra eu não me pegar mais uma vez dando uma olhadinha escondida pra ele. Eu sou teimosa, você me conhece: não escuto nem a mim mesma.
Sabe de uma coisa? Acho que vou deletar todas aquelas músicas do meu computador. Pra quê deixar elas ali se elas são piores que espinhos cravando no meu peito refrescando a vívida memória daquele momento, daquele segundo, da gente sacudindo dentro do ônibus. A gente andava muito de ônibus, né? Ainda bem que eu posso ir caminhando até o trabalho, já pensou?!
E me arrume uma daquelas caixinhas que você adora, um potinho, um frasquinho, que é pra eu te colocar ali dentro e esconder bem escondido. Pra eu me esquecer onde foi que eu guardei, assim como você fazia quando a gente ia sair de casa e você não sabia onde tinha deixado o meu maço de cigarros...