quinta-feira, 1 de maio de 2008
Lá Dentro
"Prefiro as crianças. Pelo menos elas olham diretamente pra mim, perguntam o que é isso na minha boca, se dói, como coloca. Os mais velhos também, com um comentário de que na época deles nem brinco tinha. Os adultos olham de lado, viram o rosto quando eu passo. Sempre mentem, sempre escondem. Um veneno aquilo." (Ônibus, a caminho do trabalho, 6h47m)
Ah, se eu te contasse metade das coisas que passam na minha cabeça, menina, você enlouqueceria cem vezes mais que eu.
De tudo um pouco acontece. Do que já passou, de momentos inteiros ou apenas fragmentos, de lembrancinhas soltas flutuando sem nome. Do que pode acontecer, situações que crio, dos carros que eu compro todo dia, das pessoas que eu conheço na minha imaginação, dos filmes que faço. Do que está acontecendo, milhares de contas e números, da cerveja que me espera no bar, do que vou fazer para jantar, uma nova música...
Tudo se passa tão rápido ali, que nem o mais grosso dos cadernos conseguiria anotar. Nem a mais longa das músicas cantaria uma fração de segundo de um dos meus pensamentos.
Nos personagens dos livros eu coloco rostos, e uma voz para narrar a história.
Para as pessoas eu construo castelos, de acordo com o que cada uma é para mim.
Dou nomes para as pessoas na rua. Dou bom dia ao Sol e boa noite ao apresentador do telejornal. Digo
para minhas mãos que elas precisam de hidratante e para minhas roupas que elas estão velhas.
Pros filmes eu dou seqüência, carrego comigo até os personagens envelhecerem.
No meu mundo cada um é como quero, como faço.
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